
A Loucura: a contenção de Si-mesmo
Você já sentiu que está sempre usando uma camisa-de-força para segurar-se em Si mesmo? Uma conversa sobre a “loucura”.
Psicólogo Clínico e Psicanalista
CRP 06/123471
Vamos filosofar juntos sobre este tema de acordo com Albert Camus e o Mito de Sísifo.
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Você conhece o Mito de Sísifo?
Vou começar contando sobre ele: O Mito de Sísifo é uma antiga lenda grega que conta a história de Sísifo, um rei astuto e inteligente que enganou a morte duas vezes e desafiou os deuses em sua arrogância, como castigo foi condenado a realizar uma tarefa impossível: empurrar uma enorme pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta ao fundo novamente, repetidamente e por toda a eternidade. Todo dia Sísifo empurra a pedra montanha acima, para vê-la despencar do cume ao chegar lá, obrigado a descer e recomeçar o processo de empurrá-la para cima novamente, e novamente, e de novo…
Com essa história, quero apresentar algumas visões e interpretações sobre ela do ponto de vista humano e biológico:
A pedra sobe, chega ao seu ápice, tem o declínio, e recomeça o trabalho, tal como a vida em que nascemos, crescemos, reproduzimos, envelhecemos e morremos. A pedra sendo carregada por Sísifo novamente montanha acima pode ser interpretada como a próxima vida, ou seja, nossos filhos ou a próxima geração nascendo, crescendo, reproduzindo, envelhecendo e morrendo; dando lugar a mais uma geração, e mais uma, e outra…
Talvez possamos fazer uma alusão à fala de O Rei Leão, em que Mufasa explica que o antílope come a grama, os leões comem o antílope, mas quando o leão morre, ele se torna a terra que gera grama e é comida pelo antílope; um reinício do ciclo da vida.
Qual o sentido de um micro-organismo se dividir em dois, buscar alimento sem saber bem para onde está indo, se alimentar (ou acabar sendo alimento de outro) para no final se dissolver em suas próprias entranhas? (Desculpe ser tão gráfico). O ciclo da vida muitas vezes não tem sentido algum na visão macro que temos do mundo, mas durante o processo da vida é possível criar novos sentidos. No mundo animal, somos os únicos que temos consciência de que iremos morrer um dia, e esta angústia é nossa sina. Para outros animais, a morte deve ser evitada por instinto, mas a chegada dela não traz o peso da falha ou fracasso, como nós experienciamos diversas vezes em nossas “pequenas mortes” como perder um emprego, quebrar um copo, se separar, errar; e na morte física de parentes, amigos, colegas e na fantasia da nossa própria.
O sentido da vida é ser um ciclo de sofrimento? É penitência? A consciência é o mal? O inferno é aqui?
Do ponto de vista pessimista, rolar a pedra para cima e vê-la despencar não possui absolutamente nada de útil em si, sendo uma maldição para aqueles que pensam em produtividade. A história pode ser encarada como a eterna futilidade humana por algo sem valor, como trabalhar para no mês seguinte trabalhar mais, cozinhar e comer para amanhã cozinhar e comer novamente. Esses exemplos têm sim seu valor, mas na eterna corrida pelo sucesso (já leu sobre o “Das Man: O Fantasma do Sucesso”? Clique aqui!) tornam-se vazios e sem sentido se observados apenas como um ciclo que começa e recomeça, com o fim sendo apenas a morte. Então, a única forma de dar sentido à morte seria alcançar o sucesso? E para quem não consegue? Qual a linha que separa o sucesso do fracasso?
Do ponto de vista mais otimista e esperançoso, a história de Sísifo pode ser interpretada como a eterna resiliência e persistência do ser humano em alcançar seus objetivos, mesmo que a vida seja árdua e o fim certo. Todos sabemos que iremos morrer, mas achar que por isso toda a vida não tem sentido acaba com uma das noções básicas do que é a vida: o movimento. Quando estagnamos em algo ou preferimos nos abster de situações, estamos nos defendendo daquilo que um dia nos machucou ou que, pelo menos, associamos semelhantemente como algo ruim. Estamos dando a nós mesmos pequenas quantidades de morte, pois uma linha estável e sem movimento em um hospital não é um bom sinal, certo? Nossas defesas são algo necessário para nossa sobrevivência, mas quando se tornam regra, a pedra não rola montanha acima, nem nós com ela. A palavra-chave deste ponto de vista positivo é ESPERANÇA, aquela que é a última a morrer.
O Mito de Sísifo é uma alusão ao ciclo da vida. Já entendemos isso, mas, sem olhar para o otimismo ou pessimismo, nos vemos em uma incógnita: o que é a vida? Bem, o que podemos afirmar até o momento é que a vida É. Ela não tem sentido se olharmos para as estrelas e pensarmos que viemos delas. Por algum motivo cientificamente falando, esses montes de matéria inorgânica se tornaram orgânicos e evoluíram em toda a vida que vemos e sentimos hoje. Apesar de não haver sentido, o ser humano busca sentido em tudo o que há. Isso reflete sobre a utilidade ou importância de si mesmo neste grande mistério. O que pouco pensamos é que temos a capacidade de pensar, e por si só, isso já é um milagre. Utilizar esse milagre para existir é o que fazemos a todo momento quando respiramos, comemos, brincamos, sofremos, criamos, destruímos e realizamos toda ação que você puder imaginar. Por si só, o sentido que humanamente tentamos criar é uma busca por algo maior e melhor do que é, mas não tira o fato de ser o que se é. A VIDA É, e dela podemos tirar o sentido próprio. Seu gato não pensa no sentido da vida, mas ele existe e lhe dá sentido quando ronrona em sua perna ou dorme confortavelmente em sua barriga. Ele não precisou cogitar sobre utilidade ou conclusões para lhe dar esse afeto, somente é, e é bom.
Albert Camus, um filósofo argeliano naturalizado francês, escreveu uma vez sobre o Mito de Sísifo e, de forma mais completa, trouxe esses pensamentos que estou compartilhando com vocês. Ele concluiu que a vida é um absurdo e sem sentido e, inclusive, depois de todo o sucesso escrevendo livros, peças de teatro e sua filosofia tomando força, morreu em um acidente de carro em 1960, algo que pode ser compreendido como absurdo e sem sentido tão como descrevia em seus trabalhos.
Qual foi o sentido da vida de Camus, senão pensar e experienciar sobre a falta de sentido e absurdo que é a vida? E desses absurdos, pensamos sobre como é absurdo de fato rolar uma pedra para cima de uma montanha para vê-la despencar e recomeçar o trabalho?
Na visão pessimista, de fato, é cansativo e ridículo gastar energia para algo que não tem valor. Na visão otimista, tudo tem seu valor, e a esperança é algo que nos motiva. Na visão realista, é o que é… Mas para Camus, podemos imaginar Sísifo feliz.
Mesmo que sua maldição seja recomeçar sempre, ele pode recomeçar, está ali, tem uma tarefa e se utiliza dela para dar seu próprio sentido a sua própria existência. Você pode ter vindo até aqui para encontrar o sentido da vida, como se eu fosse um guru em uma montanha com a resposta mágica, mas, pela montanha de Sísifo, trago uma das muitas verdades que você pode acreditar: que o sentido de tudo é aquilo que acreditamos ser.
A vida não tem sentido sem um ser pensante para dar sentido à ela.
Parabéns por ser um milagre.
Camus, Albert. O mito de Sísifo. Editora Record, 2018.
Freud, Sigmund. Além do princípio do prazer. Companhia das Letras, 2010.
TED-ED. Is life meaningless? And other absurd questions – Nina Medvinskaya. Vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vPtzpjC7TF4&list=PLgYjX72dYSed6ZF-Rx6U3Ikt4GH94qOYH. Acesso em: 24 mar. 2023.
Você já sentiu que está sempre usando uma camisa-de-força para segurar-se em Si mesmo? Uma conversa sobre a “loucura”.
Você já parou para pensar que o “pensar”, inclusive este que te motivou a continuar lendo este texto, está apenas e exclusivamente em sua mente?
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Vamos filosofar juntos sobre este tema de acordo com Albert Camus e o Mito de Sísifo.