
A Loucura: a contenção de Si-mesmo
Você já sentiu que está sempre usando uma camisa-de-força para segurar-se em Si mesmo? Uma conversa sobre a “loucura”.
Psicólogo Clínico e Psicanalista
CRP 06/123471
Você conhece sobre a Doença de Alzheimer? E sabe que apesar da perda de memória os sentimentos permanecem?
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Você sabia que a Doença de Alzheimer não “apaga” sentimentos?
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que afeta principalmente a memória, causando uma série de sintomas que podem incluir confusão mental, perda de orientação, dificuldade em realizar tarefas simples, além de afetar a capacidade de aprendizagem e de comunicação. Embora a perda de memória seja um dos sintomas mais comuns da doença de Alzheimer, muitos pacientes mantêm seus sentimentos e emoções mesmo que as lembranças dos eventos que os causaram tenham sido esquecidas.
De acordo com uma revisão de estudos publicada na revista “Frontiers in Neuroscience” em 2020, a perda de memória em pacientes com Alzheimer é frequentemente associada à perda de conexões entre as células cerebrais que são responsáveis pelo armazenamento e recuperação de informações. No entanto, outras áreas do cérebro que estão envolvidas na regulação das emoções, como o córtex cingulado anterior e o sistema límbico, podem permanecer relativamente intactas, mesmo em estágios avançados da doença.
Em um estudo publicado na revista “Neuropsychologia” em 2014, os pesquisadores examinaram pacientes com Alzheimer em diferentes estágios da doença e descobriram que, mesmo quando eles não conseguiam lembrar o que haviam feito no dia anterior, ainda podiam experimentar emoções em resposta a estímulos emocionais, como imagens positivas ou negativas.
Com estas informações, vamos agora refletir: se é entendido que o Alzheimer está associado à perda de memória recente (ou de longo prazo em alguns casos) e que mesmo assim as emoções (ex. raiva, felicidade) e sentimentos (ex. prazer, vergonha) não são afetadas pela perda de memória, podemos cogitar de que nossas noções sobre memória e sentimentos ainda precisam ser melhor entendidas. É quase unanimidade, na verdade, de que sabemos pouquíssimo sobre como as memórias funcionam de fato no cérebro. Uma das teorias é de que todo o cérebro funciona em uma rede muito bem estipulada a cada recordação, juntando cenas, cheiros, sensações, sentimentos, percepções entre outras experiências em um único momento lembrado.
Entretanto, uma coisa podemos concluir sobre os estudos acima: os sentimentos e emoções permanecem em casos graves de Alzheimer, mesmo que a memória factual da pessoa já esteja tão danificada que mal consegue fazer atividades básicas sem auxílio.
Vamos imaginar o seguinte cenário:
Você acordou em um lugar que nunca viu antes, não sabe onde está e muito menos como chegou ali. No primeiro momento você fica confuso e assustado. Você olha para frente e vê um vaso de margaridas que está logo à frente de sua cama. Você não sabe explicar, mas sente paz e alegria. Apesar da confusão ainda, você não está mais assustado e agora sente que apesar de tudo, está seguro.
O que o vaso com margaridas representa?
Eu não sei, você também não, mas é sabido que independente do saber, você sente. E sente que está tudo bem. Não é possível jogar a razão na lata do lixo, mas é menos angustiante e aterrorizante agora, por alguma razão. Se você possui um parente ou conhece alguém que esteja enfrentando esta doença, lembre-se disso.
Talvez sua avó não lembre de você, mas ela se lembrará da sensação de seu toque na mão dela, e como ela se sentiu feliz em receber carinho de outro ser humano. Talvez seu tio não se recorde que você é sobrinho dele, mas irá vibrar falando de futebol com você e ficará satisfeito durante muito tempo. Possivelmente seu pai não saiba que um dia teve um filho, mas cantará com você aquela música que cantavam quando você era criança, e talvez se emocione.
Apesar de nossas memórias serem em grande parte quem somos, nossas emoções e sensações também são. A perda de memória em pacientes de Alzheimer é algo que assusta e traz angústia para todos os envolvidos com a pessoa adoecida; mas compreender que esta pessoa ainda é a mesma, apesar de sofrer um mal, abre a possibilidade de continuar atuando sob a mais pura experiência humana que podemos ter até o fim da vida e depois: o vínculo.
FRONTIERS IN NEUROSCIENCE. The Emotional Brain in Alzheimer’s Disease: A Review of Imaging Findings. Frontiers in Neuroscience, v. 14, p. 1-10, 2020. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnins.2020.568607/full. Acesso em: 27 mar. 2023.
NEUROPSYCHOLOGIA. Emotion processing in Alzheimer’s disease: a systematic review. Neuropsychologia, v. 61, p. 9-18, 2014. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0028393214000803. Acesso em: 27 mar. 2023.
Você já sentiu que está sempre usando uma camisa-de-força para segurar-se em Si mesmo? Uma conversa sobre a “loucura”.
Você já parou para pensar que o “pensar”, inclusive este que te motivou a continuar lendo este texto, está apenas e exclusivamente em sua mente?
Fala-se muito de autocontrole e controle da situação, mas é totalmente possível termos controle de tudo?
Você conhece sobre a Doença de Alzheimer? E sabe que apesar da perda de memória os sentimentos permanecem?
Descartes pensava e existia deitado em sua cama, mas não só. Vamos discorrer sobre seu método inusitado de construção de conhecimento.
Vamos filosofar juntos sobre este tema de acordo com Albert Camus e o Mito de Sísifo.