
A Loucura: a contenção de Si-mesmo
Você já sentiu que está sempre usando uma camisa-de-força para segurar-se em Si mesmo? Uma conversa sobre a “loucura”.
Psicólogo Clínico e Psicanalista
CRP 06/123471
Conceitos básicos e tratamentos de acordo com a Psicanálise do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).
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Vamos começar com uma verdade: a ansiedade é normal e faz parte do Ser Humano. Em resposta física e psicológica para o acarretamento do mecanismo de defesa de Luta ou Fuga, a Ansiedade é útil para mobilizar o Ser Humano a evitar o perigo que virá, de acordo com o que já se sabe.
Entretanto, hoje vamos pensar sobre a forma de Ansiedade que ao invés de auxiliar a pessoa a se impulsionar ou tomar atenção, na verdade gera desconforto, sensações de urgência, recorrentes sintomas físicos que se assemelham a doenças fatais, entre outros que, ao invés de ajudar o Ser a se defender, atrapalham o cotidiano e a vida de uma forma geral; geralmente sem razão concreta.
Tenso, não é?
Esta Ansiedade é a qual chamamos de psicopatológica ou Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), pois dificulta o cotidiano e causa crises que, em média, duram de dez a vinte minutos e podem se repetir várias vezes durante o dia, por meses.
Segundo a própria OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o país com mais pessoas que sofrem de TAG no mundo! São cerca de 18,6 milhões de casos diagnosticados e em tratamento (dados de junho/2022), o que não inclui aqueles ainda não diagnosticados por falta de acesso à informação ou profissionais. Tão como a Depressão (leia aqui sobre Depressão), é um transtorno de caráter biopsicossocial, ou seja, pode afetar e é oriundo do corpo, mente e vida social.
Pelo método psicanalítico, é compreendido que as razões (raízes) são de caráter inconsciente, ou seja, foram recalcados no inconsciente. Por associação inconsciente de situações, o trauma faz com que o Ser evite se ver de frente ao causador do trauma, e segue evitando-o assim com sintomas ansiógenos que retiram o indivíduo de frente do potencial perigo, seja ele concreto ou não, reconhecido conscientemente ou não.
A Ansiedade ou TAG é caracterizada pela preocupação excessiva a fatos reais ou fantasiosos, recorrentemente vislumbrados como possíveis e prováveis de acontecerem. Difere-se do Medo, pois este é um sentimento evitativo sobre algo que está acontecendo, já a Ansiedade é do que está por vir (o futuro levará a morte ou destruição do Ser).
Para ser compreendida e poder ser diagnosticada como um transtorno, é incluída no DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quinta edição). A TAG está associada com ao menos três ou mais dos seguintes sintomas, com pelo menos alguns deles presentes na maioria dos dias nos últimos meses:
São comumente notados sintomas físicos sem causa orgânica conhecida, como queimação no estômago (gastrite, úlcera, azia constante ou refluxos), insônia moderada ou grave, taquicardia (aumento do ritmo do coração), tontura, formigamento e sudorese fria (suar frio). Alguns outros sintomas físicos são menos recorrentes, mas também são importantes de serem avaliados: dores renais, empobrecimento do sistema imunológico (que acarreta em maior proliferação de bactérias controladas, tal como herpes e clamídia), ‘tiques’ involuntários (tremores nas mãos, pernas e/ou pálpebras) e desmaios. Lembrando que somente é avaliada a possibilidade de TAG em quaisquer destes sintomas se, após exames médicos regulares, não for constatado nenhuma causa física para eles (como por exemplo hipertensão, síndromes, autoimunidade, hipertiroidismo, tumores, cardiopatias, etc.), nem pelo uso pontual ou recorrente de substâncias (droga de abuso ou medicamentos).
É avaliado também o funcionamento psicossocial e suas dificuldades, tais como: desmotivação de estar em lugares públicos (sair com amigos, ir a eventos, etc), medo constante de ficar ansioso em locais desconfortáveis (“prefiro ficar em casa a sair e passar mal”), embotamento afetivo (empobrecimento nas relações e sentimentos), vigilância ininterrupta (sempre atento), entre outros que dificultam o dia a dia, principalmente em meio aos outros.
é utilizado para diminuição dos sintomas da crise (crise é o grau agudo do transtorno, quando os sintomas ficam impossíveis de serem controlados naquele momento/ciclo), tal como o uso de diazepam ou calmantes; ou terapêutico no processo de captação e armazenamento de determinados neurotransmissores (moléculas que ativam ou inibem sensações ou ações no cérebro) que ativam sensações ansiógenas, tal como o escitalopram. Obviamente, qualquer uso de medicamentos deve ser primeiramente avaliado e prescrito por um médico, que neste caso pode ser um psiquiatra ou neurologista.
entendido aqui pela visão psicanalítica, entra como uma avaliação dos gatilhos e histórico de vida do indivíduo que levam à TAG, sendo eles possivelmente de ordem traumática por associação de traumas passados a fatos similares atuais que levarão ao mesmo resultado penoso; o conhecido “isso já me aconteceu, tenho que evitar”, mesmo que em muitas situações não se saiba a causa, nem a associação é feita de forma consciente (ou seja, não lembro o “por quê”, mas sinto que preciso fazer algo para sobreviver a “isto”).
Cada pessoa tem uma simbologia e aspectos socioculturais que aumentam ou diminuem a incidência da TAG, portanto é avaliado caso a caso, história a história, a fim de reconhecer e apontar repetições de hábitos psiquicos que potencializam o aparecimento dos sintomas; mas mais profundamente, em autocompreensão, autoconhecimento e análise de si é possível encontrar a raíz do trauma, que compreendido e ressignificado (dado outro significado a ele, não esquecido!) desativa o gatilho à Ansiedade.
Você já sentiu que está sempre usando uma camisa-de-força para segurar-se em Si mesmo? Uma conversa sobre a “loucura”.
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Fala-se muito de autocontrole e controle da situação, mas é totalmente possível termos controle de tudo?
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